Cellebrite e FirstMile: como funcionam as duas tecnologias de vigilância que viraram notícia no Brasil
Cellebrite e FirstMile: entenda as duas tecnologias de vigilância israelenses que viraram notícia no Brasil — uma legal, outra alvo de investigação da PF.
Duas ferramentas de origem israelense ganharam destaque na imprensa brasileira nos últimos anos por motivos opostos: uma por seu uso legal em investigações policiais, outra por um escândalo de espionagem ilegal dentro do governo federal. Nenhuma das duas é um aplicativo que uma pessoa comum pode baixar ou comprar — e é justamente por isso que vale entender o que cada uma faz de verdade.
Cellebrite Premium: a ferramenta forense usada pela polícia
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O Cellebrite Premium é um software de perícia digital desenvolvido pela empresa israelense Cellebrite, vendido exclusivamente para autoridades policiais e órgãos de investigação — não está disponível para o público. Ele é usado para extrair dados de celulares apreendidos legalmente, incluindo mensagens apagadas, em investigações criminais.
No Brasil, o caso mais conhecido é o da morte do menino Henry Borel: a Polícia Civil do Rio de Janeiro usou o Cellebrite Premium para recuperar prints de conversas apagadas do WhatsApp que ajudaram a fundamentar a prisão da mãe e do padrasto da criança. Internacionalmente, uma ferramenta da mesma linha foi usada pelo FBI para tentar acessar o iPhone do autor do atentado de San Bernardino, nos Estados Unidos, em um caso que gerou disputa pública entre a Apple e o governo americano.
O funcionamento técnico do Cellebrite é segredo comercial, mas se sabe que a empresa combina falhas de software e hardware para contornar bloqueios de tela em aparelhos Android e iOS. O acesso à ferramenta é restrito por contrato a laboratórios forenses com “especialistas certificados”, e seu uso fora de investigação com autorização judicial é ilegal.
Vale registrar que a própria Cellebrite já teve seus segredos comerciais expostos: em outubro de 2025, uma reunião de vendas da empresa foi invadida, revelando detalhes técnicos sobre quais aparelhos ela consegue — ou não — desbloquear, incluindo uma diferença relevante entre a segurança do Android padrão e do GrapheneOS.
FirstMile: o software por trás do escândalo da “Abin Paralela”
Já o FirstMile é o centro de um caso bem diferente. Desenvolvido pela empresa israelense Cognyte (antiga Verint), o software permite localizar a posição de um celular em tempo real digitando apenas o número de telefone, explorando falhas nas redes de telefonia 2G e 3G do Brasil.
A Polícia Federal apurou que o FirstMile foi comprado pelo governo Michel Temer em 2017, por R$ 9 milhões, sem licitação, e depois usado de forma ilegal pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Jair Bolsonaro para monitorar mais de 10 mil celulares por ano — entre os alvos, ministros do Supremo Tribunal Federal, jornalistas, advogados e adversários políticos. O esquema ficou conhecido como “Abin Paralela” e levou a investigações que indiciaram o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, e apontaram indícios de participação do próprio Bolsonaro.
Diferente do Cellebrite, que exige posse física do aparelho e é vendido só para investigação legal, o FirstMile foi usado remotamente e sem autorização judicial — o que caracteriza o crime de interceptação ilegal de comunicações, segundo a própria Polícia Federal.
O que isso significa na prática
Nenhuma dessas duas tecnologias está disponível para uma pessoa comum monitorar o celular de outra pessoa, seja parceiro, familiar ou qualquer outro alvo. São ferramentas de uso institucional, sujeitas (pelo menos em tese) a controle legal e judicial — e o próprio caso FirstMile mostra o que acontece quando esse controle falha: investigação criminal e indiciamentos. Quem procura formas de rastrear ou acessar remotamente o celular de outra pessoa sem consentimento está, na prática, buscando praticar um crime previsto no Código Penal (invasão de dispositivo informático, Art. 154-A).
Fontes: Canaltech, TecMundo, Tecnoblog, CNN , O Globo (via InfoMoney), Agência Pública, SBT News.
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Bom pessoal, esperamos que tenham entendido como funciona o cellebrite premium e em que casos ele é utilizado.
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Perguntas frequentes
O Cellebrite Premium pode ser baixado ou comprado por qualquer pessoa? Não. É vendido exclusivamente para autoridades policiais e laboratórios forenses, mediante contrato com a empresa Cellebrite. Não existe versão para o público.
O FirstMile ainda está em uso pela Abin? A estrutura que operava o sistema, o Centro de Inteligência Nacional (CIN), foi desmontada pelo governo atual. O caso segue em apuração pela Polícia Federal e pelo STF.
É possível usar esse tipo de tecnologia para monitorar o celular de outra pessoa, como parceiro ou filho? Não de forma legal. Rastrear ou acessar o celular de alguém sem consentimento e sem autorização judicial é crime previsto no Código Penal (invasão de dispositivo informático, Art. 154-A), independente da ferramenta usada.
Qual a diferença prática entre o Cellebrite e o FirstMile? O Cellebrite exige posse física do aparelho e é usado dentro de investigações com previsão legal. O FirstMile atuava remotamente, sem necessidade de acesso ao celular, e seu uso pela Abin foi considerado ilegal por não ter autorização judicial.
Existe alguma forma legal de saber se um software como esses foi usado contra mim? Não há uma ferramenta pública de verificação. Em casos de suspeita fundada de espionagem ilegal (por exemplo, por parte de autoridades), o caminho é buscar orientação jurídica e, se for o caso, registrar boletim de ocorrência ou notificação ao Ministério Público.



